Podias dedicar-te agora a estudar o acidente de Chernobyl e o do Concorde.
Assim acabavas como os mitos que tens.
Também não percebeste a ideia desses exemplos. Aquilo que tu dizes em nada altera, só reforça a minha ideia inicial, que era a de dizer que todas as actividades humanas tem um risco, e um dia alguma coisa acabará por não funcionar como era suposto. Haverá sempre uma simples peça leve de metal ou um pesado carril de Tgv a destruir o planeado, seja na AF, seja na BA.
A diferença é a de que os danos em qualquer contratempo, erro ou acidente, são normalmente limitados e circunscritos, o que no caso da energia nuclear não é, os danos são de uma dimensão catastrófica que só por si deveriam impedir a proliferação de uma tecnologia deste género.
Para além desse risco, inaceitável na minha opinião, eu continuo a insistir que a energia nuclear não é barata, e é esse o teu e de muitos outros, o principal argumento a favor do nuclear. Eu até há poucos anos atrás tinha exactamente a mesma opinião, mas hoje não a tenho.
Continuo a insistir, não me parece minimamente viável o nuclear em Portugal, muito menos para construir uma ou duas centrais. Países como a França, a Espanha, Inglaterra ou mesmo a Finlandia, todos eles tem as suas autoridades de segurança nuclear há décadas no terreno.
São organizações complexas e de dimensão razoável. Em Portugal, para além da construção, teriam que se replicar todas essas estruturas de segurança, fiscalização e monitorização. Seria como construir em poucos anos todas as nossas boas competências em engenharia e estruturas, o Lnec, etc,etc, coisas que demoraram décadas a consolidar e a apurar.
Mesmo na Finlandia, com toda essa estrutura já montada, o processo desta nova central entre a decisão e a entrada em funcionamento vai durar mais de uma década, talvez até década e meia. A construção de uma central nuclear hoje em dia é um quebra-cabeças monstruoso, o que tornou a energia nuclear práticamente inviável em quase todo o mundo por causa da segurança, da legislação, das regras e certificações. Porque é que achas que não se constroem centrais nucleares no EUA desde 1970 ? Porque é que UK vai abandonar o nuclear ? Porque é que a Itália vai abandonar o nuclear ? Porque é que a Espanha vai abandonar o nuclear ?
A única excepção é a França, onde criaram um modelo de certificações, mais ágil dada a excelente experiência de décadas que têm nesta área, e com FORTE apoio estatal. Mas são um caso único, para o qual contribuiu a dimensão do país, a quantidade de centrais, a experiência e investigação e até pelos muitos testes nucleares do proprio país ao longo de décadas no Pacífico.
A nova central que a Finlandia está a testar é um novo modelo, e acima de tudo uma nova forma de agilizar todas estas complexas questões referentes à segurança.
Básicamente, a central finlandesa é uma especie de franchising do know-how francês.
E tem sido um projecto interessante, que imensos países têm acompanhado, mas infelizmente não tem corrido assim tão bem. Era uma esperança para muitos países, mas para já os problemas tem sido muitos.
Para teres um sistema distribuição energética precisas de estabilidade na rede que a eólica ou outra alternativa não te dá.
Pq uma coisa é a potência instalada e outra é a efectivamente produzida e qd.
A estabilidade está garantida. A REN neste momento nem sequer está preparada para todos os projectos das centrais de ciclo combinado que vão começar a funcionar nos próximos anos na Figueira (EDP + Iberdrola) e em Sines (Galp). São estas centrais de última geração a Gas, extremamente eficientes e com um terço das emissões das centrais tradicionais que colocam a energia a preços quase tão competitivos como a nuclear no sistema. E são preços que efectivamente reflectem o seu verdadeiro custo e não empurram para as próximas décadas os residuos da sua actividade...
Os espanhois estão exactamente a fazer o mesmo, com a recente construção da mega central de ciclo-combinado do sul de Espanha e com o crescimento eólico tomaram há muito a decisão de abandonar o nuclear.
Mas vi que ignorasta a "curiosidade mórbida".
Não, não ignorei. É uma realidade, as centrais a carvão são as piores de todas, o destino delas será a extinção. Mas não confundas a radioactividade duma central a carvão com a dum eventual acidente nuclear. A radioactividade como sabes é uma coisa natural na natureza, o problema são as concentrações.
Resumindo e concluindo:
1) A grande diferença de opiniões sobre o nuclear, é que uns pensam que o nuclear é a pedra filosofal, energia barata e limpa. Não o é na minha opinião, muito pelo contrário.
Se o fosse, já há muito tempo não estariamos sequer a falar disso aqui...
2) Todas as alternativas são complexas, com muitos defeitos e limitações. É verdade, não é um caminho fácil, é tormentoso.
Mas esse caminho só parece difícil porque se acredita na tal pedra filosofal. A tal que não existe !