Deixem de discutir o Salazar, o Franco, o Cunhal ou o Castro.
Qualquer português inteligente e informado já percebeu há muito que nem Salazar foi o o monstro que a história recente quis fazer dele, muito menos o Cunhal é o heroi democrata que essa mesma história quis criar. Ponto final ! E não vale a pena branquear, demonizar ou transformar em anjo, nem um nem outro !
Até acho boa ideia discutirmos tudo isso, mas então se calhar era melhor criarmos um tópico específico, sobre o Salazar ou o Cunhal por exemplo.
Portanto, e regressando ao tópico, e como este concurso dos "Grandes Portugueses" virou uma palhaçada, porque como me disseram, foi de facto o Salazar que ganhou, logo seguido do Cunhal, que tal tentarmos também aqui corrigir a enorme besteira que foi a escolha destes dois nomes ? Eu pelo menos, como português, e dado o numero enorme de pessoas que participaram nisto, acho que isto me envergonha !
É que eu acho que se os nomes em questão vencerem de facto, sinceramente acho que a "brincadeira" assim irá longe demais... e será um pouco humilhante para a nossa democracia.
Como já disse noutro comentário, para mim, a escolha acima de todas as polémicas, vai naturalmente para Aristides de Sousa Mendes. Aquilo que ele fez está à margem de quaisquer discussões ideológcas e politicas, está à margem da avaliação que hoje fazemos dos factos históricos passados, está à margem destas tretas todas que consomem o pessoal (eu incluído) e os threads do forum. O homem a quem chamam "O Schindler português" mas que na verdade salvou muito mais pessoas dos nazis do que o Schindler. A história se fosse justa diria que o Schindler era "O Aristides Alemão", pois o Aristides provavelmente salvou dos campos de concentração mais de 30 mil pessoas, comparativamente às mil de Schindler. E digo isto não para minorizar Schindler, mas sim para realçar a enorme injustiça face ap pouco reconhecimento daquilo que fez Aristides de Sousa Mendes, um quase completo desconhecido entre nós.
A escolha de Aristides de Sousa Mendes é afinal aquilo que realmente interessa. Em plena II Guerra Mundial, em que Portugal estava completamente à margem, numa embaixada portuguesa (Bordeus) em França à beira da ocupação nazi, milhares de pessoas chegavam à cidade em fuga ao avanço alemão, um português, advogado e cônsul, bem instalado na vida, não consegui suportar aquilo a que assistia e optou por deixar de lado tudo o que era importante e desobedecendo a todas as ordens, desatou a passar vistos sabendo que obviamente isso teria repercussões na sua própria vida.
As ordens eram explícitas: Não passar vistos a "estrangeiros de nacionalidade indefenida, contestada ou em litígio; os apátridas; os judeus, quer tenham sido expulsos do seu país de origem ou do país de onde são cidadãos".
Fez aquilo que era certo, mas poucos fariam no lugar dele.
Aristides passou milhares de vistos a desconhecidos em Bordeus, regressando depois a Portugal, aproveitando a viagem para tarzer clandestinamente mais uns quantos refugiados, foi castigado por Salazar, retirado da carreira diplomática e impedido de excercer advogacia. Atravessando muitas dificuldades, foi com a ajuda de alguns judeus a que ele provavelmente salvou a vida que conseguiu enviar alguns dos filhos para os Estados Unidos para estudar. Pouco depois, dois desses filhos alistam-se de imediato nas forças armadas americanas e estiveram entre as tropas que desembarcaram na Normandia para combater o Hitler.
Aristides morreu na miséria em 1954. Poucos anos antes, no final da guerra, Salazar hipocritamente elogiou o país pelo seu acolhimento aos refugiados de guerra, sem nunca reabilitar Aristides.
Só muitos anos depois, em 1967, Aristides de Sousa Mendes é finalmente reconhecido, em Nova York, numa cerimónia judaica em que lhe é atribuido a mais alta distinção judaica, com a inscrição:
«Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro».
Só 20 anos depois, em 1987, finalmente em Portugal, é lhe atribuida a Ordem da Liberdade.
Poderá haver melhor português que este ? Eu acho que não !
Algumas citações de ASM, algumas delas são citações reconhecidas mundialmente, mas que em Portugal pouco ou nada se conhecem:
«My desire is to be with God against man, rather than with man against God»
«Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus»
«A partir de agora, darei vistos a toda a gente, já não há nacionalidades, raça ou religião»
«If thousands of Jews can suffer because of one Catholic [Hitler], then surely it is permitted for one Catholic to suffer for so many Jews»
http://www.sousamendes.com/