Segue aqui a minha opinião sobre a Inovação e Empreendorismo, que eu até já parcialmente partilhei noutros tópicos.
Para mim há muitas razões para a falta de inovação e a suposta falta de empreendorismo
Falta de Empreendorismo
Para começar, acho que a falta de empreendorismo nos portugueses é um mito. Acho que os portugueses são muito empreendedores, às vezes até demasiado e de forma irresponsável. Aqui há uns anos, a quando do 1º Boom da Net , fui a uma série de encontros de venture-capital e seed-capital, onde o objectivo era apresentar pessoas com ideias a pessoas com dinheiro. Para mim, a maioria dos projectos muitas vezes eram simplesmente cómicos. Havia todo o tipo de gente, até putos que queriam arranjar capital para fazer um portal sobre Musica Reggae e outros tão maus que já nem me recordo. Não havia falta de empreendorismo, mas havia muita infantilidade. Se forem ao site da Empresa na hora veem que empresas novas são muitas, mas só de olhar para os nomes, parece que estamos a ver o Gato Fedorento.
Inovação
Os portugueses são bastante empreendedores, mas 99% das vezes em coisas com zero inovação. Todos os dias são criadas dezenas de empresas, e sempre negócios que nada tem de novo nem original. Uma mania tipica nacional é a da cópia. Alguém abre uma loja para animais de estimação que é um aparente sucesso, passado uns meses abrem logo mais duas ou três. Alguém ganha dinheiro a fazer sites e toda a gente começa a fazer sites, até a empregada de limpeza diz ao administrador da empresa que o filho faz sites. Isto é transversal a todos os sectores de activdade, das pastelarias à publicidade.
Serviços
Os portugueses criam 99% de empresas na área dos serviços. Serviços e mais serviços, pelas razões apontadas no ponto anterior. Criar produtos quase não existe, muito menos produtos inovadores.
Capital
Quem já quis criar empresas sabe que existe de facto pouco capital disponível para investir. Quem queira recorrer ao banco ou tem pais ricos ou chucha no dedo. Capital de risco também é ficção.
Ainda há uma semana vinha uma reportagem no Expresso dum dos maiores produtores de presunto de porco preto do Alentejo (considerado um dos melhores presuntos do mundo), que tem um negócio próspero e clientes em lista de espera, mas que precisa de capital para crescer pois tem muito mais encomendas do que aquilo que consegue produzir e precisa de construir maternidades, instalações de fumeiro, etc. E mesmo assim, com um mercado e um produto considerada iguaria de elevada valor e qualidade, ele simplesmente não consegue arranjar dinheiro em Portugal, quer de bancos, quer de investidores. E está iminente a entrada duma empresa espanhola no capital para injectar liquidez para crescer. O empresário lamentava-se de ter que abrir o capital a um qualquer tubarão espanhol, mas que não tinha outra alternativa.
Ora a pergunta que se coloca é: porque é que não há capital ?
A resposta é muito simples, a culpa na verdade é toda nossa. O nosso sistema financeiro tem elevadas rentabilidades mesmo sem arriscar. A mania dos portugueses de quererem comprar casa própria (somos um dos países com mais casas próprias do mundo) conjugada com a inexistência dum mercado de aluguer (por causa da irresponsabilidade do Estado durante décadas) faz com que o nosso sistema financeiro seja muito rentável sem ter que andar a arriscar dinheiro em empreendedores. A mesma coisa para os investidores privados e detentores de capital. Durante a última década quem tinha dinheiro para rentabilizar investia em imobiliário e obtinha rentabilidades fabulosas, praticamente sem risco. Se as rentabilidades eram elevadas, para quê colocar dinheiro em projectos que comportam sempre risco ?
Nesta assunto, também houve muita irresponsabilidade fiscal do Estado, pois além de existirem elevadas rentabilidades, os impostos devidos raramente eram de facto pagos. Houve muitas histórias de apartamentos de cem ou duzentos mil contos comprados em cash... Isso já mudou bastante nos últimos 2/3 anos... Só a % fiscal por si só já representava uma rentabilidade elevada para qualquer negócio rival ...
Nos EUA há muito mais capital de risco, quer sociedades, quer privados detentores de capital à procura de projectos onde colocar a massa porque as rentabilidades que eles obtem no sistema financeiro tradicional não são atractivas.
Sobre este assunto, penso que a situação em Portugal irá melhorar nos próximos anos, pois o mercado imobiliário está a estagnar e quem tem dinheiro (bancos e outros) começará aos poucos a procurar alternativas, e além do mais, hoje já é muito mais dificil fugir às obrigações fiscais no mercado imobiliário ou mesmo nos paraisos fiscais como a operação Furacão da PJ parece demonstrar.
Dimensão
Portugal é um país muito pequeno, a dimensão é critica. Um portal de Musica Reggae que falei atrás se calhar nos EUA seria uma boa ideia, cá não faz sentido nenhum.
Mesmo quando se criam produtos inovadores, raramente se pensa na dimensão do país.
Por outro lado, há coisas onde nós temos boa dimensão. Por exemplo, somos o 2º país com maior consumo de peixe per capita do mundo. Deveriamos tirar partido disso. Mas ainda esta semana li desabafos de pessoas que andaram anos a tentar criar aquiculturas, projectos que esbarraram durante décadas em pareceres ambientais negativos e a burocracia da administração central e local, e agora mutos empresários do sector estão furiosos, porque o próprio Estado que travou tantos e tantos projectos aos nacionais, vai agora apoiar um projecto duma empresa espanhola, a Pescanova.
A Função do Estado
Muitos pedem apoios do Estado para a inovação, o que é uma coisa profundamente contraditória. Inovação é a antitese do Estado burocrático e lento a agir. Cada vez que vejo alguém a pedir apoios para inovar dá-me voltas ao estomâgo. A maior parte dos raros projectos e empresários inovadores nacionais tem um comum o facto de nunca pedirem o que quer que seja ao Estado.
A função do Estado é criar uma ambiente competitivo. Nos impostos, na justiça, nos mercados, burocracia, etc. Tudo coisas que de facto em Portugal não existem de todo. Como já disse uma vez num tópico, a justiça é fundamental. A maior dificuldade das jovens empresas é que muitas são inovadoras mas depois fracassam por falta de liquidez porque há clientes que não pagam ou pagam tarde. Um só negócio que acaba mal muitas vezes é suficiente para atirar ao charco uma jovem empresa que até era interessante e inovadora.
O resultado prático disso é que ficam no mercado muitas vezes sozinhas determinadas empresas velhas, burocráticas, ferrugentas e pouco inovadoras, mas que tem uma dimensão que lhes permite aguentar este estado de coisas, secando contudo todos os pequenos projectos inovadores que nasceram e que poderiam um dia ter outra dimensão. São também estas empresas que muitas vezes recorrem a sacos azuis e à corrupção e outros esquemas, tudo coisas que não estão ao alcance de pequenas e dinâmicas jovens empresas...
No dia em que uma pequena empresa recorra à justiça por falta de pagamento duma factura e no mês seguinte o Estado entrar no escritório do devedor e a apreender equipamentos, créditos, etc, nesse dia o mercado terá milhares de empresas muito mais inovadoras do que existem hoje. E dessas milhares, muitas irão crescer e tornar o país muito mais competitivo, inovador e exportador. Olhem para a rapidez com que o Veiga do Benfica chegou a acordo com a tal empresa estrangeira depois de lhe terem levado os sofás e o plasma. Como tudo seria tão diferente em Portugal se isso fosse a norma...
Flexibilidade fiscal e laboral
Acho que deveria haver muito maior flexibilidade fiscal e laboral na criação de novas empresas ou na expansão de empresas inovadoras.
Para uma pequena e nova empresa, é muito arriscado contratar pessoas sabendo que o negócio pode ou não resultar. Muitas vezes as empresas querem crescer mais mas tem medo de contratar os recursos correctos. O resultado de uma maior flexibilidade é que em 10 empresas novas, metade se calhar fechavam, mas outras cresciam e criavam muito mais emprego no futuro. O resultado da falta de flexibilidade é que se calhar nenhuma cresce e está sub-dimensionada prestando um mau serviço ou que poderia ser melhor e um dia acabam por fechar todas.
As especificidades nacionais
Disse no ponto 2) e 3) que os portugueses criam a maior parte das vezes empresas sempre com a mesma actividade e geralmente relacionada com os serviços e com zero inovação. Também falei da nossa dimensão.
Acho que os portugueses raramente olham para as nossas especificidades. Às vezes os nossos maiores problemas podem ser as nossas maiores oportunidades. Se olharem para o passado, vemos que em Portugal inventámos o telemóvel pré-pago e que hoje existe em todo o mundo. E porque é que criámos o telefone pré-pago ? Por causa dum problema, que era o facto dos portugueses não terem crédito ou seram maus pagadores. Neste caso transformou-se um problema numa grande oportunidade. Foi exactamente a mesma coisa que permitiu construir a melhor rede mundial de multibanco e multiplos serviços nesses terminais. Foi o facto dos portugueses não terem crédito que permitiu criar essa rede.
O que quero dizer com isto tudo, é que acho que muitas vezes deveriamos tentar negócios inovadores para resolver aquilo que são problemas. Por exemplo, Portugal é assolado todos os anos com imensos fogos florestais. Se calhar deveriamos ter já empresas a criar produtos novos para lidar com isso (vigilância por UAV's, software de simulação e previsão, sensores, satelites, etc,etc) e aproveitar a nossa infeliz experiência nessa área para exportar depois para outros países o nosso know-how e respectivos produtos.
São meras ideias, mas há muitas coisas onde apesar de sermos um país pequeno temos especificidades onde temos uma grande dimensão. Os telemoveis são outro exemplo.
Formação
Outro problema que eu vejo muitas vezes é a falta de formação. Há muitos empresários muito criativos, mas ao qual lhes falta conhecimentos de gestão mesmo básicos. Muita gente dinâmica faz a gestão de forma completamente artesanal, quase a olhar apenas para a caixa e o saldo bancário. Faltam-lhes conhecimentos de quase tudo: gestão, marketing, design, etc, etc. Aqui sim, deveria haver algum esforço do Estado nesse sentido, quer de formação dos empresários, quer de aproximar as empresas das instituições de ensino.
Na formação, temos um passado vergonhoso onde quase todos fomos culpados. Os fundos sociais europeus foram esbanjados à grande em Portugal. A maioria das pessoas participava nestas acções de formação só para receber um cheque ao fim do mês. E quem organizava as formações também alinhava no esquema, pois o objectivo não era formar bem mas receber o cheque da CEE. Foram tempos de vergonha total, todos nós deveriamos meter a cabeça na areia, do Estado, às empresas, aos formadores e aos formandos. Uma vergonha, que nunca deveriamos esquecer, deveria constar da nossa história em lugar destacado, pois foi transversal a todos os envolvidos.
Rivalidades e inveja nacional
Para além do problema da cópia de negócios que falei no inicio, há em Portugal um grande sentimento de inveja. Quem tem sucesso é muitas vezes arrasado. Para além disso há muitas rivalidades. As próprias empresas deveriam muitas vezes colaborar mais umas com as outras e pôr as rivaldades de lado. No Douro, a união de vários produtores de vinho tem feito milagres pelo sucesso dos vinhos tintos a nível internacional. E quem diz empresas, diz entidades do Estado. Não fazem ideia das imensas rivalidades que há por vezes entre organismos do Estado. Ou mesmo de universidades. As negociações para o MIT em Portugal iam falhando por causa desta rivalidade mesquinha. Os americanos ficaram chocados com tamanha pequenez...
Por exemplo, outra historia que me recordo. Às vezes quando estou parado no transito não percebo como em Portugal há tantos telemoveis e ainda não foi construído um sistema decente a tirar partido disso para ajudar os condutores na estrada. Em Inglaterra sei que já estão a testar sistemas em que fazem uso dos sinais de telemovel para obter e prever os fluxos do transito e indicar alternativas. E isso faz-me recordar sempre as rivalidades. Aqui há uns anos sei que houve empresas que queriam fazer coisas interessantes nesta área e recorrer também as camaras de transito das diversas entidades, ntegrar GPS's e telemoveis, etc. Mas segundo me disseram, nunca conseguiram fazer nada porque todas as entidades (Brisa, JAE, etc) queriam fazer e explorar o seu próprio sistema. O resultado disso é que se calhar hoje poderia haver um produto interessante nesta área e que não existe de todo. Por causa das rivalidades entre as diversas entidades.