Reportagem Exclusiva Hoje no
Diário de Referência
Agora tirem as vossas conclusões, dado que o O CEMA diz que
"Nunca conseguirá explicar aos Portugueses".
[8)]
Reportagem CM - Falhanço
A Marinha de Guerra conhecia desde as 06h42 a zona onde naufragara o pesqueiro ‘Luz do Sameiro’ – mas uma investigação do CM demonstra que só perto das 08h30 chamou os meios de socorro, que chegaram tarde. Só um tripulante foi salvo. Morreram seis pescadores
Quatro satélites gravitam à volta da terra com um único objectivo: eles captam os sinais enviados por embarcações em perigo e enviam o alerta para os centros de busca e salvamento. Cerca de 90 por cento dos mares está sob vigilância. O sinal emitido pelo pesqueiro ‘Luz do Sameiro’, em dificuldades ao largo da praia de Légua, no concelho de Alcobaça, foi captado pelo satélite e chegou, precisamente às 06h42 de 29 de Dezembro à base de rastreio de Toulouse, no Sul de França.
O ‘Luz do Sameiro’ estava equipado com a bóia de emergência – uma ‘garrafa’ flutuante que se desprende da borda do barco em contacto com a água e emite para o satélite o sinal de naufrágio. O código enviado pela bóia permite mais duas coisas: identificar a embarcação e o local aproximado do desastre. Na base de Toulouse, às 06h42 daquela sexta-feira, ficaram a saber que o barco de pesca ‘Luz do Sameiro’, matriculado no porto de Vila do Conde, tinha naufragado na zona costeira da Nazaré.
A informação de França chegou numa questão de segundos ao centro português de busca e salvamento – instalado no ‘bunker’ da NATO, em Oeiras, mas sob responsabilidade da nossa Marinha de Guerra.
A esta hora ainda ninguém sabia com rigor de geógrafo a localização exacta do naufrágio. O primeiro sinal enviado pelo satélite apenas indicou a latitude – uma linha imaginária, paralela ao Equador, que começava escassas dezenas de milhas a Norte da Nazaré e terminava na costa dos Estados Unidos.
No centro de busca e salvamento, em Oeiras, foi então cometido o primeiro erro – diz José Teixeira, oficial da marinha mercante. Este homem, que leva 30 anos de mar, conhece como actuam as autoridades de Espanha e do Norte da Europa – e não tem a mais pequena dúvida: “Um helicóptero devia ter descolado imediatamente para a zona da Nazaré. Já se sabia que o barco era um pequeno pesqueiro português. Não podia navegar muito afastado da nossa costa.”
07h00
A Marinha de Guerra nada fez a não ser esperar que um novo sinal da bóia do ‘Luz do Sameiro’, captado pelo satélite, indicasse a posição exacta do barco.
A investigação do Correio da Manhã permite concluir que no centro de busca e salvamento, pelas 07h00, havia a certeza absoluta de que o pesqueiro estava em dificuldades, ao largo, escassas milhas a Norte da Nazaré.
Ainda assim, não foi pedido o helicóptero à Força Aérea. Nesta altura, segundo José Teixeira, “a operação de socorro já leva 15 minutos de atraso”.
07h15
Um segundo sinal de satélite, captado pela estação de Toulouse, permite finalmente conhecer ao milímetro a posição do barco em dificuldades. O centro português de busca e salvamento fica a saber que o ‘Luz do Sameiro’ naufragou na praia da Légua – exactamente na latitude indicada no primeiro sinal enviado pela bóia de emergência.
Enquanto os sete pescadores a bordo eram castigados pela ondas de dois metros e meio, reinava a calma no centro de busca e salvamento. Nem um telefonema a pedir o helicóptero da Força Aérea, nem um telefonema a mandar sair a lancha da estação do Instituto de Socorros a Náufragos na Nazaré.
Pelas 07h15 o armador do barco, Manuel Maio, recebe um telefonema, em Caxinas. Era do centro de busca e salvamento – a ‘rádio-baliza’, como os pescadores chamam. Manuel Maio ouviu o que não queria ouvir. O seu barco naufragara na praia da Légua, a Norte da Nazaré. Tinha o filho a bordo, era o mestre do pesqueiro.
O militar de serviço no centro de busca e salvamento seguiu à risca as formalidades burocráticas. Queria confirmar com o armador se o barco estava mesmo no mar, não fosse o caso de se tratar de um falso alarme, e quantos pescadores estavam a bordo. “Eu nem sabia onde era a praia da Légua. Ele é que me disse que era em Alcobaça, a Norte da Nazaré”, recorda ao CM Manuel Maio.
08h20
O ‘Luz do Sameiro’ está em sérias dificuldades, a cerca de 100 metros da praia. Aproximava-se de um perigoso banco de areia, autêntico viveiro de robalos e douradas, peixe nobre com elevado valor comercial. Aquela zona, enxameada de redes abandonadas, é uma armadilha fatal – e aconteceu o pior: redes ficaram enroladas na hélice e o barco sem governo, batido por mar forte, acabou por encalhar no banco de areia onde as vagas rebentam com violência.
O único sobrevivente, o ucraniano Vasyl Hurny, cozinheiro a bordo, contou que estava a dormir e acordou com um estrondo – o casco de aço a bater no fundo de areia. Subiu ao convés. Encontrou o mestre, Inácio Maio, e o contramestre, José Ferreira, aflitos: aceleravam o motor mas a hélice, enleada em redes, não respondia. Os outros quatro tripulantes, segundo Vasyl, também acordaram nessa altura.
O barco naufragou pelas 06h42. Hora e meia depois ainda não havia sinal de socorro. Os pescadores, cansados, com medo, castigados pela rebentação e pelo frio, perdiam as forças e a esperança.
Pelas 08h20 um pescador desportivo, José Saldanha, chega à praia da Légua – e o barco está ali à sua frente. Ainda viu quatro pescadores no convés. Corre a telefonar para o 112. Só então, o centro de busca e salvamento parece acordar para a tragédia.
08h25
A esta hora as estações do Instituto de Socorros a Náufragos, subordinadas à Marinha de Guerra, ainda não abriram: os tripulantes dos salva-vidas trabalham das 09h00 às 17h00 e fora deste horário estão em casa com os telemóveis ligados à espera de chamada.
António Bernardo, patrão do salva-vidas da Nazaré, preparava-se para sair de casa, em São Martinho do Porto, a caminho do trabalho, quando foi informado de que devia largar para a praia da Légua.
08h45
Apenas duas horas e 20 minutos depois de o ‘Luz do Sameiro’ ter emitido o primeiro sinal de alerta, o centro de busca e salvamento pede à Força Aérea o helicóptero estacionado no Montijo, a meia hora de voo da Nazaré. O pedido chega à Base Aérea às 08h45.
José Teixeira, oficial da Marinha Mercante, lastima tanto tempo perdido e não poupa críticas aos procedimentos utilizados pela Armada nas operações de salvamento no mar. “Na Europa do Norte e em Espanha o helicóptero descola para uma zona de busca mal o satélite obtém a primeira coordenada de latitude. Em Portugal, esperam pela localização exacta. E este tempo de espera pode ser fatal”, diz José Teixeira.
No caso do naufrágio do ‘Luz do Sameiro’ , o centro de busca e salvamento já tem às 07h15 as coordenadas exactas do naufrágio – mas, até chamar o helicóptero, tem de cumprir um rol de normas inúteis. “Telefonam para os capitães do portos, telefonam para o armador, telefonam para o oficial de serviço no Comando Naval, gastam tempo precioso numa teia infernal de burocracia e avaliações e, por fim, fazem o telefonema que devia ser o primeiro da lista – para o oficial de dia na Base Aérea do Montijo a pedir o bendito do helicóptero”, diz José Teixeira.
08h55
O mapa com a localização das estações do Instituto de Socorros a Náufragos de Caminha a Vila Real de Santo António é enganador. Dá a ideia, pela quantidade de pontos, que a costa está bem protegida. “Os salva-vidas são desadequados”, diz José Teixeira. Os mais rápidos, semi-rígidos com cascos em fibra e flutuadores, são demasiados pequenos para enfrentarem mar adverso. Os maiores são lentos.
Faltam, por exemplo, salva-vidas com um fundo em almofadas pneumáticas (estilo ‘hovercraft’) com motores a jacto – que aguentam temporais bravos e são capazes de passar por zonas de forte rebentação.
O patrão António Bernardo largou da estação da Nazaré precisamente às 08h55. O salva-vidas, da classe ‘Patrão Joaquim Lobo’, navega há 19 anos. É lento. Dá no máximo dez nós por hora, o equivalente a cerca de 18 quilómetros por hora. Mas é impossível ao patrão do leme manter por muito tempo a velocidade máxima. O motor aquece com muita facilidade. Se aquecer de mais bloqueia e só pode ser ligado de novo uma hora e meia depois.
09h15
O salva-vidas da Nazaré chega às 09h15 ao local do naufrágio. A tripulação avista quatro pescadores agarrados aos ferros no convés do barco. Mas nada pode fazer. Afasta-se. O patrão António Bernardo, de 55 anos, já medalhado por salvamentos heróicos, sabe que a sua lancha não tem capacidade para entrar na zona de rebentação – e, mesmo que o fizesse, as redes à deriva à volta do pesqueiro naufragado eram uma armadilha para a hélice. “Se ele tivesse um valente ’hovercraft’ com motor a jacto teria lá chegado e salvava os pescadores”, garante José Teixeira.
10h04
O helicóptero da Força Aérea surge, por fim, nos céus da praia da Légua. São exactamente 10h04. Apenas há um pescador com vida. Foi salvo.
A Força Aérea também tem horários a cumprir. Entre as 09h00 e as 17h00 as bases aéreas fervilham de actividade. Neste período a Força Aérea garante que consegue ter um helicóptero pronto para descolar 30 minutos depois de receber o alerta. Fora do horário normal, com a base a meio gás, o tempo de resposta aumenta para 45 minutos.
Até em Portugal é possível fazer melhor. Os helicópteros do Serviço Nacional de Bombeiros e de Protecção Civil (SNBPC) descolam em escassos 15 minutos.
Na manhã do naufrágio na praia da Légua os serviços de Protecção Civil informaram o centro de busca e salvamento da Marinha de Guerra que o helicóptero estacionado em Santa Comba Dão estava pronto para voar sobre os náufragos. A oferta foi feita às 09h15. A Marinha recusou.
O helicóptero dos bombeiros, equipado com um guincho e com um tripulante treinado para descer e recuperar os náufragos, teria chegado à praia pelas 09h40, cerca de 25 minutos antes do aparelho da Força Aérea.
Do areal da praia da Légua, bombeiros, nadadores salvadores e equipas de emergência médica assistiram impotentes ao drama de pelo menos quatro pescadores que ainda lutavam pela vida no convés do barco naufragado. As ondas levaram um a um. Sobreviveu o mais forte, ucraniano, com experiência de mergulho profissional.
“Motas de água lançadas da praia teriam salvado aqueles homens”, diz o comandante José Teixeira.
HORROR A BORDO DO PESQUEIRO
O ‘Luz do Sameiro’ saiu do porto da Nazaré para a pesca, pelas 02h30 de sexta-feira, 29 de Dezembro. O mestre Inácio tomou rumo para o banco de areia da praia da Légua onde abundam os robalos – o ouro do mar. É uma zona proibida de pesca. Este mar está enxameado de redes ilegais que se enrolaram na hélice: o barco ficou sem governo e encalhou. Os pescadores aguardaram quase três horas por socorro. Só um se salvou, içado pelo helicóptero.
ALMIRANTE ASSUME FALHAS
O chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) assumiu ontem responsabilidades pelas tentativas falhadas de salvar do mar seis pescadores do barco que naufragou na praia da Légua, a Norte da Nazaré. O almirante Melo Gomes apresenta-se “solidário com os marinheiros que tentaram o salvamento”, sem êxito.
“Assumo todas as responsabilidades – as nossas – como é meu dever, certo de que todos saberão também assumir as suas, retirando lições”, afirmou o chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Melo Gomes, num documento distribuído em todas as unidades da Marinha e a que a agência Lusa teve acesso.
O almirante Melo Gomes reconhece no documento que, apesar de “tudo” ter sido feito para salvar os pescadores do pesqueiro ‘Luz do Sameiro’, a Marinha de Guerra “nunca conseguirá explicar ao público” o facto de não ter conseguido salvar todos os sete tripulantes “a tão curta distância da praia”. O almirante Melo Gomes afirma-se seguro “da eficácia” com que os marinheiros utilizaram os meios ao seu dispor.
A EFICÁCIA BRITÂNICA E DA VIZINHA ESPANHA
Para o governo britânico o tempo de resposta dos meios de salvamento é uma prioridade e não deve exceder os cinco minutos – desde o alerta até à chegada ao local. As autoridades responsáveis conseguiram-no em 98 por cento dos casos, em 2004 e 2005. O Governo investiu ainda num hangar, em Portland, em que os meios aéreos servem apenas para buscas e salvamento no mar.
Em Espanha. o plano nacional de salvamento, traçado para 2006 e até 2009, pretende reduzir o tempo de resposta dos meios marítimos. Há lanchas rápidas que chegam a qualquer ponto do mar, até às 15 milhas da costa, no máximo de 75 minutos e um helicóptero de salvamento, que dentro das 25 milhas chega num máximo de 60 minutos.
TRÊS HORAS NO MAR GELADO
O ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas admitiu ontem que o Governo reforce os meios de salvamento no mar – mas alertou que a segurança dos pescadores “começa nas condições das embarcações e na utilização de coletes salva-vidas”.
Os coletes não teriam salvo os seis pescadores que morreram a bordo do ‘Luz do Sameiro’. A temperatura da água, na manhã do naufrágio, rondava os dez graus.
“O corpo humano não aguenta mais de duas horas na água abaixo dos 18 graus centígrados” – diz José Teixeira, oficial da Marinha Mercante. Mesmo que os pescadores se atirassem ao mar com os coletes salva-vidas envergados, teriam ficado na água fria durante mais de três horas – entre as 06h42 e as 10h04 – quando o helicóptero chegou à zona do desastre, a escassos 100 metros do areal da praia da Légua.
SOCORRO
A lancha salva-vidas da Nazaré, que esteve no local do naufrágio, é lenta – e nem pode acelerar à velocidade máxima, porque o motor aquece e pára. O Serviço Nacional de Bombeiros e de Protecção Civil tinha este helicóptero pronto a descolar em Santa Comba Dão e informou a Marinha de Guerra, que recusou. Teria chegado á praia 25 minutos antes do helicóptero militar.
NÁUFRAGO INGLÊS SALVO EM SAGRES
Um veleiro britânico, de nome ‘Nomad’, encalhou ontem de manhã no sítio da Pedra do Cajado, duas milhas a Norte do Cabo de S. Vicente, em Sagres, Vila do Bispo.
O único tripulante, um inglês de 32 anos, saiu ileso do acidente. Os Bombeiros de Vila do Bispo retiraram-no do fundo da falésia, na zona da Pedra do Cajado. Três fachos luminosos foram avistados às 06h00 pela tripulação da embarcação de pesca ‘Princesa de Sagres’, que lançou o alerta, tendo o salvamento ocorrido cerca de três horas depois.
O velejador viajava de Londres para Gibraltar e assegurou ser um marinheiro experimentado. A embarcação, de dez metros de comprimento, ficou completamente destruída e o proprietário vai ser notificado para proceder à remoção, tarefa que não se afigura fácil devido à localização.
LÁ FORA
INGLATERRA
Em Inglaterra o governo criou um órgão responsável pelas medidas de segurança no mar e na zona costeira que, neste país, se prolonga por 16 898 quilómetros.
TESTES
Todos os anos as equipas de salvamento inglesas fazem testes às tecnologias utilizadas e ao tempo de INSPECÇÃO
Um dos objectivos do governo britânico, que desde 1998 debate a segurança marítima, é que as embarcações sejam todas inspeccionadas.
ESPANHA
Em Espanha, o plano de salvamento concebido para os próximos dois anos passa pela formação dos homens envolvidos no sistema de socorro marítimo.
ZONAS DE RISCO
O plano de socorro marítimo espanhol sublinha ainda a necessidade de adoptar planos específicos tendo em atenção as zonas geográficas e os seus riscos.
COORDENAÇÃO
Outro dos objectivos fundamentais é a coordenação dos organismos que estão incumbidos do socorro a náufragos e dos que se responsabilizam pela contaminação marinha.
Manuel Catarino/S.S./A.A