Já agora a fábrica que constroi os assintos dos MPV da Autoeuropa, uma entrevista que dá uma visão geral.
Para quem não sabe a VANPRO ainda não ganhou mais nenhum concurso para fornecer quer o EOS quer o Sirocco, e se não vier mais nenhum Monovolume a ser produzido na AutoEuropa ... [8)][xx(]
Luís Dantas, director geral da VANPRO
“Teoricamente a VANPRO irá acabar juntamente com a Autoeuropa”
Criada a partir da americana Johnson Controls e da francesa Faurecia, a VANPRO foi fundada em 1993 com o objectivo de fornecer os assentos para os automóveis fabricados na Autoeuropa. Sendo actualmente a sexta maior empresa do distrito de Setúbal, da VANPRO dependem cerca de 320 famílias cujo futuro pode estar em perigo caso a Autoeuropa feche as suas portas.
Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, Luís Dantas, director geral da empresa, mostra-se confiante na continuidade desta unidade, bem como da Autoeuropa, atendendo a que ambas as empresas cumprem parâmetros de produtividade e de qualidade que as deixa muito bem posicionadas junto das outras fábricas dos respectivos grupos. Luís Dantas fala ainda dos objectivos da empresa, da especificidade do trabalho que desenvolve e salienta a disponibilidade que os funcionários da VANPRO têm demonstrado sempre que é necessário aumentar a carga horária para fazer face ao volume de trabalho, uma vez que a empresa está directamente dependente da produtividade da Autoeuropa
Setúbal na Rede – O que acontecerá à VANPRO quando a Autoeuropa fechar as portas?
Luís Dantas – Tendo sido criada com a finalidade de fornecer a Autoeuropa, teoricamente a VANPRO irá acabar juntamente com a Autoeuropa. Tendo em conta os custos da montagem de assentos no preço total do carro e dada a sua volumetria, o que tem acontecido nos últimos anos é que a montagem dos assentos foi deslocalizada para empresas subcontratadas ou fornecedores de primeira linha, que estão relativamente perto dos construtores. Normalmente não distam mais de vinte e cinco quilómetros, isto para permitir que as entregas estejam facilitadas. Perante isto, suponhamos que a Autoeuropa fecha ou é deslocalizada para outra região, logo a VANPRO ou outra empresa sucedânea vai acompanhar essa deslocalização. Nós somos uma empresa específica, não só em termos de estatutos, já que o seu objectivo é fornecer a Autoeuropa, mas também pelos condicionalismos de ordem técnica e económica.
SR – Há dados que indicam quanto tempo vai ainda durar a parceria?
LD – No âmbito do projecto existente, esta parceria está garantida até ao final do ano 2005. Neste momento, a esperança que se estende a todos os participantes neste projecto é que antes de 2005 seja anunciado um outro projecto que complemente o actual. No final de 2005, a Ford vai deixar de montar a Galaxy na Autoeuropa e o que está previsto é que exista outra plataforma que venha substituir esta e complementar o número de veículos fabricados apenas com a marca Volkswagen. A Autoeuropa é uma fábrica relativamente recente, as informações que nos têm chegado dão-nos conta de que os seus índices de produtividade, de higiene, segurança e protecção do ambiente têm uma cotação muito boa dentro do grupo, o que, aliado ao facto de ser um investimento recente, pensa-se que terá continuidade no futuro. Relativamente à VANPRO, também tem desenvolvido todos os esforços junto do cliente e dos accionistas para que seja uma das empresas que vai continuar para o futuro, em conjunto com todas as evoluções que a Autoeuropa vai ter.
SR – Navega à vista, com 2005 no horizonte, mas com confiança?
LD – Sim, com confiança. É para isso que temos vindo a desenvolver um esforço interno em conjunto com todos os colaboradores, no sentido de transmitirmos uma imagem positiva junto do nosso cliente e dos nossos accionistas, duas pedras de toque fundamentais para a nossa continuidade.
SR – Sente-se insegurança nos trabalhadores face ao futuro do posto de trabalho?
LD – Sim, por vezes as pessoas manifestam a sua preocupação, o que é natural. Eu costumo ter sempre uma palavra de esperança, porque temos uma grande responsabilidade no assegurar desse futuro. Cabe-nos a nós fazer ver ao nosso cliente e aos nossos accionistas que temos competência e uma vontade bastante forte de continuar. Nas manifestações que fazemos continuamente desta nossa vontade, tenho recebido sempre palavras de confiança, o que faz com que estejamos convictos que a empresa vai continuar
SR – É viável diversificar a actividade desta empresa ou os seus clientes?
LD – Em relação à actividade é viável, quanto a clientes poderá ser mais difícil porque não existe mais nenhum construtor automóvel aqui perto e tal como já referi, existe uma limitação de vinte e cinco a trinta quilómetros para a distância a que uma empresa do tipo da nossa deve estar do cliente. Quanto à diversificação do produto, qualquer uma das nossas “casas mãe” têm uma grande componente de interiores, a Faurecia é o melhor exemplo disso, já que apresenta uma grande diversidade. Para além dessas capacidades já fazerem parte das “casas mãe”, existe também a nossa competência para agarrarmos algumas delas. Nós temos vontade de alargar a nossa actividade a outros componentes do interior do automóvel, para além dos assentos.
SR – A crise mundial tem afectado a indústria automóvel e particularmente esta empresa?
LD – Ainda não houve um peso significativo da recessão, embora os volumes deste ano sejam menos dez por cento dos do ano 2001. Chegámos ao final de 2002 com 130 mil veículos contra 136 mil e seiscentos o ano anterior. Por outro lado, as opções dos assentos têm sido mais ricas porque se têm fabricado assentos de gama mais elevada, o que contrabalança as perdas em termos de quantidade e globalmente permite-nos assegurar o mesmo volume de emprego de 2001.
SR – Esta empresa provém de duas multinacionais. Existe uma cultura própria da VANPRO?
LD – Sim, existe uma cultura própria. Nenhuma das “casas mãe” nos impôs qualquer tipo de cultura, até porque elas próprias são diferentes. Então acabámos por criar a nossa própria cultura, que procura retirar da Faurecia e da Johnson Controls os melhores exemplos aplicando-os aqui na VANPRO, o que nos permite sermos referência em determinadas áreas. É curioso que, neste momento, já vêm da Johnson e da Faurecia ver como é que nós funcionamos. Ao longo dos nossos oito anos de actividade temos mantido uma postura de melhoria contínua e isso tem sido uma das nossas armas para nos podermos posicionar de uma forma positiva dentro do grupo. A nossa postura diária é de interrogação e de crítica em relação ao nosso trabalho, procurando sempre fazer melhor.
SR – O que bebem de melhor do modelo francês e do norte-americano?
LD – Do modelo francês a estabilidade. Eles promovem a estabilidade e eu penso que só através da estabilidade de um grupo de trabalho podemos aspirar a melhorar constantemente. Assim temos espaço para podermos melhorar a nossa organização e a nossa gestão, o que por vezes não acontece devido à elevada mobilidade dos quadros directivos, uma característica das empresas multinacionais. Vamos buscar a estabilidade aos franceses e aos americanos, o desafio e a competição constante. A instabilidade dos americanos e o conservadorismo dos franceses têm sido a chave do nosso sucesso até agora.
SR – O modelo da VANPRO poderia fazer escola no país?
LD – Sim, pelo menos é uma experiência muito interessante sobre a forma como se gere uma empresa que resulta da união de duas concorrentes, com filosofias de trabalho um pouco distintas, embora trabalhem no mesmo ramo. Os nossos rácios em termos de absentismo e de acidentes de trabalho, no fim, todos eles concorrentes à produtividade, não nos trazem qualquer problema na comparação com qualquer fábrica, quer seja europeia ou americana.
SR – Mas isso está pouco divulgado, em resultado de uma imagem pública excessivamente discreta?
LD – Sim, isso por vezes traz-nos algumas vantagens, porque em vez de estarmos excessivamente preocupados com o que se diz, acabamos por ir fazendo, sendo que o que nos interessa é a obra feita. A Johnson Controls tem cerca de cinquenta fábricas na Europa e a Faurecia tem quarenta, pelo que se torna difícil compararmo-nos com noventa fábricas. Entretanto vamos trabalhando e temos mesmo algumas práticas que não existem nas outras fábricas a nível europeu. Exemplo disto é o facto de sermos uma das poucas fábricas que está certificada em termos de sistemas de higiene e segurança, uma vez que apenas uma das fábricas de cada um dos grupos conseguiu esta certificação, ao contrário do que acontece com a certificação ambiental que é comum a cinquenta por cento das empresas. A VANPRO está certificada em higiene e segurança desde Setembro de 2002.
SR – Qual o peso social e económico desta empresa na região?
LD – Em termos sociais, temos um peso significativo, dado que 320 famílias dependem de nós. Ainda recentemente, na nossa festa de Natal, conseguimos juntar 350 pessoas na mesma mesa. Ainda que nem todas as pessoas tenham ido, é curioso verificar que alguns dos rapazes que começaram connosco há quatro ou cinco anos, hoje são pais de família. Este é um ponto que nos leva a preocuparmo-nos em inovar sistematicamente, de modo a garantirmos o futuro destas pessoas, porque, nunca é demais referir que são 320 famílias que dependem da VANPRO. No campo económico, somos uma empresa saudável e nunca tivemos problemas económicos. Aliás, mesmo que os tivéssemos, as pessoas poderiam estar descansadas que iriam ter sempre o seu ordenado na conta, isto porque a Faurecia está cotada na bolsa de Paris, enquanto a Johnson Controls está cotada em Nova Iorque, daí que ambas têm um nome a defender e as multinacionais costumam ser muito cuidadosas nestes aspectos.
SR – Qual é o peso das reivindicações dos trabalhadores em termos sindicais?
LD – As questões sindicais foram tendo um peso progressivo na VANPRO, um pouco devido à envolvência com a Autoeuropa, porque foi aí que os movimentos sindicais se começaram a instalar primeiro. Neste momento tratamos os assuntos sindicais como um assunto da nossa gestão.
SR – A empresa está bem integrada na região?
LD – Sim, a maioria dos quadros são da região. Eu moro em Cascais, mas de qualquer forma sou da região da grande Lisboa. 98% das pessoas que trabalham connosco são da Península de Setúbal, pelo que vivemos com os setubalenses no dia-a-dia.
SR – Como é que as particularidades desta região contribuem para a identidade da empresa?
LD – Eu penso que uma das características mais positivas que nós encontramos aqui tem a ver com a juventude, com a camada de pessoas jovens que se puderam juntar ao nosso projecto. Depois, gostaria de salientar a disponibilidade que as pessoas têm demonstrado para nos acompanharem nos momentos difíceis, dado que existem períodos em que as cadências da Autoeuropa nos obrigam a fazer sábados e domingos e tem havido sempre uma grande disponibilidade das pessoas para acompanharem as necessidades da empresa. Como nós estamos integrados no projecto da Autoeuropa, estamos dependentes da produção dessa empresa. Se eles fazem pouco, nós fazemos pouco, se eles fazem muito, nós fazemos muito, isto porque o nosso trabalho começa quatro horas antes dos assentos serem montados na Autoeuropa. Não temos qualquer tipo de stock. O nosso trabalho divide-se em três fases, primeiro temos os componentes, depois os componentes em fase de montagem e por fim a entrega na Autoeuropa.
SR - A pressão a que as pessoas estão sujeitas devido a essa forma de trabalhar, não tem sido motivo de conturbação dentro da empresa?
LD – Aqui não tem sido. Ainda recordo que no início as pessoas sacrificaram muitas vezes o seu domingo de descanso para estarem aqui e cumprirem as exigências que lhes eram feitas. Neste trabalho não pode haver falhas e as pessoas entendem isso. Nós estamos completamente dependentes da Autoeuropa. Mesmo os plenários só são feitos quando o mesmo é feito na Autoeuropa. Nestes casos, se eles param, nós paramos também. Até agora as pessoas têm compreendido bem esta filosofia e têm-se mostrado sempre disponíveis para colaborar.
SR – Perante o que acabou de dizer, deduzo que a VANPRO não se identifica com a guerra em torno da Lei do Trabalho.
LD – Não, até porque como já tive oportunidade de dizer, esta lei não vai trazer grandes alterações na VANPRO. Haverá pequenas coisas a mudar, mas basicamente não vai haver uma mudança radical. Provavelmente deveríamos ser mais inovadores, trazer algo de diferente, uma vez que os especialistas consideram que a nossa lei do trabalho ainda fica aquém das que vigoram noutros países da Europa. Neste momento, a minha preocupação não vai para os países que já compõem a Comunidade Europeia, mas sim para os que vão entrar, dado que são países que têm uma formação de base e profissional superior à nossa, além de leis laborais mais flexíveis. No entanto, com a lei laboral actual, penso que temos vivido bem, com índices de produtividade equivalentes aos de outros países com leis mais flexíveis. Há, de facto, um modelo que tem funcionado e não tem sido por causa das leis ou das burocracias que nós temos parado.
SR – Esta empresa pode ser também um exemplo para o Governo?
LD – Penso que sim. Nós, pelas dinâmicas que temos imposto à nossa empresa e à nossa organização, não temos receio de sermos apontados como um exemplo. Nós não temos qualquer receio de nos compararmos em termos de produtividade com qualquer outra unidade do grupo. Qualquer uma das empresas é rentável, estão todas cotadas na bolsa, a Johnson Controls chegou em 2002 ao número mágico dos 20 biliões de dólares de vendas, é uma empresa centenária, tem 109 anos e há vinte que vem a aumentar as suas vendas e os seus lucros, pelo que nós constituímos uma ínfima parte desse grupo. A Faurecia, cuja maioria das acções pertence a um grande construtor, também tem vindo a crescer e é hoje a maior fornecedora de interiores para a indústria automóvel, na Europa. A Johnson Controls é cerca de duas vezes e meia maior que a Faurecia em termos de volume de negócios, devido ao grande peso da empresa nos Estados Unidos.
Pedro Brinca e Paula Pinto - 13-01-2003 16:06
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